Selic em 15% ao ano: Um Freio no Setor Produtivo Brasileiro

Selic em 15% ao ano: Um Freio no Setor Produtivo Brasileiro

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  • 17 de novembro de 2025
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Juros básicos no Brasil estão no maior nível em quase 20 anos

Conforme detalhamos em nosso artigo “Qual a taxa Selic hoje (Novembro 2025)?”, o Copom decidiu mantém a Taxa Selic em 15% ao ano em novembro. Na ata da última reunião, em setembro, o Copom informou que a Selic será mantida em 15% ao ano por tempo prolongado.

Em um cenário econômico global marcado pela gradual desaceleração inflacionária e pela expectativa de ciclos de flexibilização monetária, o Brasil segue como um outlier. A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano – após um ciclo de cortes modestos que parece ter estagnado – acendeu um sinal de alerta e gerou reações imediatas no setor produtivo nacional.

Longe de ser um mero indicador financeiro, a Selic travada em patamares estratosféricos atua como um freio de arrão no coração da economia real: a indústria, o agronegócio, o comércio e os serviços. Este artigo iremos analisa as causas, os efeitos perversos e os riscos de se manter uma política monetária tão restritiva em um momento que exige fomento ao crescimento.

O Divórcio entre a Política Monetária e a Realidade do Setor Produtivo com a Selic em 15%

Para entender a preocupação das empresas, é crucial entender o que significa uma Selic a 15% ao ano na prática. Essa taxa é o custo do dinheiro para a economia. Dessa forma, quando alta, ela produz uma série de efeitos em cadeia:

1) Custo do Crédito Proibitivo: As taxas de juros para empréstimos e financiamentos para empresas são indexadas à Selic. Com a taxa básica em 15%, um empréstimo para capital de giro, compra de maquinário ou expansão de operações pode facilmente ultrapassar 25% ou 30% ao ano.

Uma pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ilustra dramaticamente esse problema: 80% das empresas industriais apontam os juros como o principal obstáculo ao crédito de curto prazo, enquanto 71% consideram a taxa o maior entrave ao financiamento de longo prazo. Nessas condições, investimentos que seriam lucrativos com juros mais baixos tornam-se inviáveis. A conta não fecha, e projetos são adiados ou cancelados.

2) Afixação de Títulos da Dívida Pública: A Selic é a remuneração básica dos títulos do Tesouro Direto. Com um retorno garantido e sem risco de 15% ao ano, o mercado financeiro tem um incentivo poderoso para alocar seus recursos em aplicações financeiras, em detrimento de investimentos produtivos de risco e retorno mais demorado. Esse fenômeno, conhecido como “crowding out” (ou efeito deslocamento), drena recursos que poderiam irrigar a economia real para o cofre do governo.

O custo disso para a sociedade é astronômico: segundo a Contraf-CUT, cada ponto percentual da Selic eleva em cerca de R$ 50 bilhões os gastos públicos com juros da dívida, desviando quase R$ 1 trilhão de recursos que poderiam ser investidos em saúde, educação e infraestrutura.

3) Câmbio e Competitividade: Embora juros altos atraiam capitais estrangeiros em busca de renda, apreciando o câmbio no curto prazo, um real forte é um veneno para a indústria nacional. Produtos importados tornam-se mais baratos, aumentando a concorrência desleal com os fabricantes locais. Paralelamente, as exportações de produtos manufaturados perdem competitividade, pois seu preço em dólar fica mais alto.

4) Retração do Consumo: O crédito ao consumidor também fica caríssimo. Financiamento de veículos, eletrodomésticos e imóveis torna-se um fardo pesado para as famílias. Com menos consumo, o comércio e a indústria veem suas vendas minguarem, fechando um círculo vicioso de baixa produção, estoques altos e demissões. O setor de supermercados, representado pela APAS, ecoa essa preocupação, destacando que a política de juros altos prejudica diretamente o consumo das famílias.

 

Inflação e Selic
Foto de Jakub Zerdzicki

O Discurso do Banco Central vs. A critíca do Setor Produtivo para a Selic em 15%

O Banco Central, ancorado no seu regime de metas de inflação, justifica a manutenção da Selic elevada com base em um conjunto de riscos à estabilidade de preços. Entre eles, destacam-se:

  • A inflação de serviços, mais persistente e resistente aos cortes de juros.
  • As expectativas de inflação para o ano, que permanecem desconectadas da meta central de 3%.
  • A instabilidade fiscal, onde a percepção de que o governo não controlará seus gastos gera pressões inflacionárias futuras.

Esta visão cautelosa encontra algum eco no setor privado. A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por exemplo, considera que a manutenção da Selic reflete um cenário de inflação ainda acima da meta, somado à expansão fiscal, à resiliência do mercado de trabalho e às incertezas externas, o que, em sua visão, “justifica uma postura monetária cautelosa”.

No entanto, para a grande maioria do setor produtivo, essa cautela tem um custo proibitivo. Enquanto o BC fala em “calibragem fina”, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que a política monetária é “excessivamente contracionista” e que “a Selic tem freado a economia muito além do necessário”. Líderes industriais, representantes do agronegócio e pequenos e médios empresários vocalizam uma angústia comum: é impossível planejar, investir e crescer com o custo do dinheiro nas alturas. O Brasil, que possui a segunda maior taxa real de juros do mundo, segundo a APAS, está na contramão do resto do planeta, isolando-se justamente quando outros países iniciam ciclos de redução.

Consequências de Longo Prazo: Desindustrialização e Estagnação

O perigo mais insidioso da manutenção prolongada de juros altos é o seu efeito corrosivo sobre a estrutura produtiva do país, e os sinais concretos já começam a aparecer.

  • Desindustrialização Precoce: A indústria de transformação, setor que gera empregos de qualidade e impulsiona a inovação, é a mais prejudicada. Sem capacidade de investir em tecnologia e eficiência, perde espaço permanentemente para concorrentes globais.
  • Paralisia na Construção Civil: O setor da construção, extremamente sensível ao crédito, já sente o impacto. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) reduziu drasticamente sua projeção de crescimento para 2025, de 2,3% para 1,3%, citando diretamente os impactos do ciclo prolongado de juros altos.
  • Dependência de Commodities: A economia brasileira se consolida como um fornecedor de matérias-primas (minério, soja, petróleo), um modelo volátil e sujeito aos ciclos internacionais.
  • Fuga de Cérebros e Investimentos: Empresas multinacionais podem realocar suas fábricas para países com custos mais competitivos, e talentos nacionais buscam oportunidades em nações com ambientes de negócios mais favoráveis.
Efeitos da selic
Imagem Pexel.

Conclusão: Um Impasse que Exige Mais do que Paciência

A manutenção da Selic em 15% ao ano não é apenas uma ferramenta de política econômica; é uma escolha que define o futuro do Brasil. Enquanto o Banco Central se concentra em ancorar expectativas e combater os últimos redutos da inflação, o setor produtivo sangra, perdendo competitividade, mercados e oportunidades, enquanto centrais sindicais como a Força Sindical denunciam a “era dos juros extorsivos” que compromete o consumo e a renda das famílias.

A solução para este impasse não reside apenas na paciência do empresariado. É necessária uma ação coordenada e crível do governo federal no front fiscal, demonstrando um compromisso inabalável com o controle dos gastos públicos. Só assim o Banco Central terá o espaço e a confiança necessários para acelerar o ciclo de cortes da Selic, liberando o setor produtivo do jugo dos juros extorsivos e permitindo que o Brasil retome, de fato, o caminho do desenvolvimento econômico sustentável e inclusivo. O momento é de decisão: continuar como um paraíso para a rentabilidade financeira de curto prazo ou se transformar em uma potência produtiva do século XXI.

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