
Selic em 15%: Entenda as Razões dos Juros Altos e o que Esperar
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- 19 de novembro de 2025
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Mercado espera taxa Selic em 12% no final de 2026
A notícia que o Banco Central (BC) manteve, pela terceira reunião consecutiva, a taxa básica de juros Selic em 15% ao ano era esperada. A decisão, unânime entre os membros do Comitê de Política Monetária (Copom), consolida o patamar mais elevado dos últimos quase 20 anos e sinaliza uma postura de cautela extrema diante de um cenário econômico complexo.
Mas o que está por trás dessa persistência em manter o custo do crédito em níveis tão altos? A análise do Copom aponta para um fenômeno atípico: a resistência de um mercado de trabalho aquecido em meio a uma desaceleração econômica geral.
O Dilema do Pleno Emprego em Tempos Inflacionários com a Selic em 15%
Enquanto indicadores de atividade industrial e comércio mostram certa moderação, o mercado de trabalho brasileiro segue dinâmico. Com taxas de desemprego em baixa, uma parcela maior da população possui renda e disposição para consumir. Embora seja uma conquista social inegável, esse cenário gera um desafio técnico para os controladores da inflação.
“O pleno emprego é uma bênção social, mas um desafio técnico para a política monetária. Quando a economia opera próxima do seu limite de capacidade, o aumento do consumo pressiona os preços, reacendendo o risco inflacionário”, explica um analista de mercado. Em outras palavras, o mesmo fator que aquece a economia familiar é o que dificulta o retorno da inflação à meta.
A Inflação Teimosa e o Horizonte de Metas
O grande obstáculo para o início de um ciclo de cortes de juros é a inflação, que se recusa a ceder para perto do centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 3% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
As projeções do próprio Copom são reveladoras: a expectativa é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerre 2025 em 4,6% e só se aproxime do centro da meta em 2026, com uma previsão de 3,6%. O mercado, por meio da pesquisa Focus, é ainda mais cético, projetando inflação em 4,5% para 2025 e 4,2% para 2026 – ambos acima do limite superior da meta para os respectivos anos.

O Cenário Externo: A Sombra dos Estados Unidos
A decisão do Copom não leva em conta apenas variáveis domésticas. O comitê explicitamente mencionou a “conjuntura e a política econômica nos Estados Unidos” como fatores de incerteza para o ambiente externo. A política monetária restritiva do Federal Reserve (Fed, o BC americano) tem impacto direto nos fluxos de capital global, exigindo “cautela por parte de países emergentes”, como o Brasil, para evitar desvalorizações bruscas do câmbio, que importam inflação.
O Governo e o Mercado: Pressão versus Ceticismo
Enquanto o Banco Central mantém sua postura técnica e conservadora, o Palácio do Planalto defende publicamente uma redução imediata dos juros. Tanto o Presidente Lula quanto o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, veem a Selic elevada como um entrave ao crescimento econômico. Haddad chegou a afirmar que as taxas “vão ter que cair”, argumentando ser insustentável manter um juro real (descontada a inflação) em torno de 10%.
No entanto, a visão do mercado financeiro é de ceticismo em relação a um corte iminente. Analistas avaliam que, com a inflação projetada acima da meta e a resistência do mercado de trabalho, não há espaço para afrouxamento monetário no curto prazo. “A inflação de serviços continua em patamar elevado e os itens mais associados ao mercado de trabalho permanecem pressionados, refletindo um desafio para o BC”, comenta um economista de um banco de varejo.
O Impacto no Seu Dia a Dia
Na prática, o que significa a Selic em 15%?
- Crédito Mais Caro: Empréstimos pessoais, financiamentos de veículos e imobiliários, e linhas de crédito para empresas se tornam significativamente mais onerosos. O objetivo é justamente desestimular o consumo e os investimentos para aliviar a pressão sobre os preços.
- Oportunidade na Renda Fixa: Por outro lado, para os poupadores e investidores, a Selic alta torna investimentos atrelados à taxa básica – como o Tesouro Selic, CDBs e LCIs/LCAs – mais atraentes, oferecendo retornos reais robustos. A caderneta de poupança, por sua vez, perde ainda mais competitividade.
E o Futuro da Selic?
A mensagem final do Copom é clara: a estratégia atual é manter os juros no patamar atual por um “período bastante prolongado”. O início do ciclo de cortes está intrinsicamente ligado ao comportamento da inflação nos próximos meses. Qualquer sinal de desaquecimento mais consistente da economia e, principalmente, do mercado de trabalho, abriria espaço para o BC reconsiderar sua posição. Até lá, a palavra de ordem para os agentes econômicos continua sendo paciência e cautela.

Além da Selic em 15%: Os Desafios que Amarraram o Copom”
Enquanto a taxa de juros é a ferramenta mais visível, a decisão do Copom é tomada em um ambiente de pressões cruzadas. Duas questões centrais explicam a postura conservadora:
O Nó Fiscal: Os economistas são unânimes em apontar que a política monetária não consegue fazer todo o trabalho sozinha. Para que os juros caiam de forma sustentável, é essencial que a política fiscal – controlada pelo governo – ajude. Um gasto público descontrolado injeta dinheiro na economia e pressiona a inflação, forçando o BC a manter a Selic alta para compensar esse estímulo. A implementação e o cumprimento das novas regras do arcabouço fiscal serão observados de perto pelo mercado como um termômetro de seriedade. Enquanto persistirem dúvidas sobre o controle dos gastos, o BC terá menos espaço para manobras.
O Contexto Global: O Brasil não é uma ilha. A política de juros elevados nos Estados Unidos e na Europa torna o cenário mais complexo. Juros altos lá tornam esses países mais atrativos para investidores globais, que podem retirar capital de nações emergentes como o Brasil. Para evitar uma fuga de dólares e uma desvalorização brutal do Real – que encarece todos os produtos importados e gera mais inflação –, o Banco Central precisa manter uma taxa de juros competitiva. É um delicado jogo de equilíbrio entre controlar os preços internos e não ficar para trás no cenário internacional.